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Vida nómada12 min de leitura4 mar 2026

Chantal Piessens: «Acabamos por perceber que podemos contentar-nos com pouco.»

Retrato de uma especialista em IT belga que escolheu a vida em autocaravana aos 50, apesar do cancro e sem pedir autorização a ninguém

Chantal Piessens: «Acabamos por perceber que podemos contentar-nos com pouco.»

Chantal Piessens tem 55 anos, um cão, dois gatos e quase 35 anos de informática nas costas. Durante quatro anos, percorreu a França de autocaravana, sozinha com os seus animais, enquanto trabalhava a tempo inteiro como suporte IT para um grupo de hospitais privados. O seu escritório: um estacionamento de supermercado durante a semana, uma floresta ou a beira-mar ao fim de semana. A sua agenda: ritmada a cada quatro semanas por um tratamento de quimioterapia do qual nunca poderá prescindir. É talvez o rosto menos esperado do nomadismo digital: uma nómada digital sénior, num estacionamento, com cancro. E é precisamente isso que torna a sua história poderosa.

Quando ficar já não é suportável

Chantal não fala de um ponto de viragem. Fala de saturação. Seis anos a cuidar dos pais idosos, a sua própria vida posta entre parênteses, depois o confinamento. Quando os pais são colocados num lar, a necessidade de partir deixa de estar em discussão.

«Senti a necessidade de deixar tudo — casa e trabalho — para recarregar e reencontrar-me.»

Sem companheiro, sem filhos. Mas com animais, que considera como seus. Uma primeira carrinha adaptada, comprada com a ajuda dos pais, para experimentar. Depois uma autocaravana em segunda mão, maior, para que os dois gatos não vivessem confinados num espaço demasiado pequeno. E a partida. Quatro anos pelas estradas de França, de uma região a outra, de um estacionamento gratuito a um viticultor France Passion, passando pelas áreas autorizadas que se tornam cada vez mais raras.

Nómada e doente: organizar a liberdade em torno de uma limitação

O que torna o percurso de Chantal único nesta série é que ela não escolheu o nomadismo apesar da doença — escolheu-o com ela. Um cancro, quimioterapia para toda a vida, um tratamento a cada quatro semanas que dura quinze minutos mas que dita o ritmo de todo o resto.

«Requer uma certa organização. Ao contrário de outros nómadas, tenho de planear a maioria das minhas deslocações. Isso implica principalmente o regresso para o tratamento. É preciso calcular tudo com antecedência.»

Na prática, funciona assim: ao fim de semana, dirige-se para uma nova região. Durante três semanas, navega por essa zona, trabalhando oito horas por dia a partir da sua autocaravana. Depois, no fim de semana antes do tratamento, faz a viagem de regresso ao hospital. Uma vez por ano, pode saltar um tratamento — é a sua janela para ir um pouco mais longe.

A Suécia é o seu sonho. Os países nórdicos são o seu paraíso — o direito de estacionar em qualquer lugar, a natureza acessível, a lei sueca que diz que a natureza pertence a todos. Mas com um tratamento a 10.000 euros por sessão, instalar-se lá é administrativa e financeiramente impossível. Chantal está presa em França. Diz sem rodeios: é frustrante.

Estacionamento de supermercado, 8 horas por dia, e está ótimo assim

O nomadismo de Chantal não tem nada a ver com os Reels do Instagram. Ela sabe, e não a incomoda minimamente.

«As pessoas veem as fotos do Instagram e pensam "que vida incrível". É verdade, há lugares deslumbrantes. Mas as fotos não mostram os bastidores: uma estrada muito movimentada, lixo por todo o lado, a gestão diária — a água, o gás, a roupa, as compras, as reparações. Eu diria que as fotos publicadas representam apenas cinco minutos de dias muito menos glamorosos.»

O quotidiano de Chantal é concreto: encontrar um estacionamento autorizado, gerir a autonomia elétrica (painéis solares, baterias), encher o depósito de água por dois euros os cem litros ou gratuitamente num cemitério, e reparar coisas. Muitas reparações. Os veículos vibram, os móveis partem-se, e se não se for desenrascado, a conta sobe depressa.

Mais barato do que a vida sedentária

É o aspeto mais contraintuitivo do percurso de Chantal: o nomadismo de autocaravana custou-lhe menos do que a vida sedentária. Sem renda, sem água corrente para pagar, sem eletricidade se o veículo estiver bem equipado, e muito menos quilómetros do que se imagina.

«Acabamos por perceber que podemos contentar-nos com pouco e que consumimos em excesso sem nos darmos conta.»

Com uma condição: comprar o veículo a pronto. E aceitar que não é como em casa — nada de três duches por dia, nada de luzes sempre acesas, nada de sobreconsumo por defeito. Para Chantal, que vem de uma relação frugal com o dinheiro, é mais uma evidência do que um sacrifício.

Solitária, não antissocial

A solidão? Chantal despacha-a com um gesto da mão. Sempre foi solitária — não antissocial, precisa, mas solitária. Gosta da sua tranquilidade. Pode instalar-se num sítio qualquer e não ver ninguém durante duas semanas sem que isso lhe cause o mínimo problema.

«Sempre preferi a companhia dos animais à dos seres humanos. São mais genuínos.»

Mas o nomadismo também lhe trouxe o que nunca teria encontrado ficando sedentária: encontros inesperados. Num estacionamento perto de Salon-de-Provence, disponibilizado gratuitamente pela câmara municipal, fez um grupo de amigos autocaravanistas com quem ainda está em contacto. Alguns ainda passam para a visitar no celeiro que aluga hoje na Vendeia, no meio dos campos. A comunidade de autocaravanistas funciona assim: uma solidariedade de uso, sem artifícios.

A regra de ouro

Sobre a segurança como mulher sozinha, Chantal tem uma regra simples, inegociável, que dá a todas as mulheres que consideram o nomadismo em veículo:

«Se se chega a um lugar e não se sente bem — pode não haver nada de visível, apenas um mau pressentimento — é preciso ir embora. É a vantagem de ser nómada: não se está preso.»

Ela própria a aplicou. Um lugar que parecia perfeito, mas um mal-estar difuso ao cair da noite. Partiu. Sem drama, sem incidente. Apenas um instinto respeitado. Ter um cão também ajuda, acrescenta — tanto pela companhia como pela dissuasão.

E agora?

Chantal teve de se resignar a vender a sua autocaravana — demasiadas avarias, demasiados riscos para os seus animais. Hoje vive num celeiro reconvertido na Vendeia, a 45 minutos de Les Sables-d'Olonne, em plena natureza. Já não é nomadismo no sentido estrito, mas o espírito está intacto: o cão, os passeios, a Charente não muito longe, o Marais Poitevin ao alcance.

O seu tratamento gera cada vez mais complicações, sobretudo a nível de dores. Por agora, contenta-se com acampar de vez em quando, de carro, com uma tenda e o cão. Volta a ser sedentária para se cuidar melhor — e talvez, um dia, voltar a partir.

Se tivesse de dar um conselho a uma mulher da sua idade que hesita? Chantal não vende sonhos. Faz perguntas: «A solidão é difícil para ti? Estás pronta a renunciar ao sobreconsumo? És desenrascada?» E se as respostas se sustentam — então avança.

Este artigo faz parte da nossa série publicada por ocasião do Dia Internacional dos Direitos da Mulher 2026. Na Hello Mira, acreditamos que o nomadismo digital se vive melhor quando é partilhado — com os locais, com outros nómadas, com quem ousa. É por isso que damos voz a mulheres que vivem esta aventura diariamente, com as suas dúvidas, as suas batalhas e a sua visão.

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Este artigo faz parte da série Hello Mira para o Dia Internacional dos Direitos da Mulher 2026. Descubra a nossa investigação completa: a nossa investigação sobre o nomadismo feminino.

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