Rose Perron: «Faz. Se não gostares, mudas.»
Retrato de uma copywriter quebequense que deixou o Canadá aos 19 anos para nunca mais voltar

Rose Perron tem 28 anos, mais de 30 países no currículo e uma filosofia de vida que cabe numa frase: comprar um bilhete, partir, ver o que acontece. Originária do Quebeque, deixou o Canadá assim que atingiu a maioridade com uma certeza: a vida que lhe propunham lá não era a dela. Desde então, fundou a sua empresa de redação web, abriu um estúdio de pole dance em El Salvador e construiu uma existência que a maioria das pessoas considera impossível — sobretudo para uma mulher sozinha vinda de um meio modesto.
Partir porque ficar não era opção
Em Rose, o nomadismo não é um estalo. É um instinto. A América Latina atrai-a desde a infância, o mar chama-a, e o quotidiano canadiano — universidade, trabalho, casa — nunca lhe fez inveja. Não precisou de um acontecimento desencadeador. Esperou ter idade para partir e partiu.
«Nunca me senti verdadeiramente bem no Canadá. O dia a dia não me entusiasmava. Olhava para o futuro, um pouco para aquilo que nos vendem lá — a receita universidade-trabalho-casa — e nunca me deu vontade. Só esperava ter idade para ir embora.»
A sua primeira viagem: um ano por quase todos os países da América do Sul. Sozinha. Regressa brevemente ao Canadá para vender os seus pertences, trabalhar um pouco, refazer as reservas. Depois parte de novo. Nunca mais voltou a viver lá.
Construir uma empresa com uma mochila às costas
Rose não é do tipo que separa a vida profissional da vida nómada. As duas construíram-se juntas, uma alimentando a outra. A sua atividade de redatora web, construiu-a a partir da estrada: LinkedIn, videoconferências, networking intenso, formação contínua. Sem escritório, sem estratégia complexa — mas com um plano de marketing, passa-palavra e, sobretudo, muitas conversas.
«Falar com as pessoas, online ou presencialmente, é a melhor forma de dar a conhecer os seus serviços e criar uma relação de confiança que pode levar à obtenção de um projeto.»
Seis anos depois, vive plenamente da sua atividade. E há três anos, estabeleceu uma base em El Salvador — um ponto de apoio após cinco anos de movimento permanente. Foi lá que abriu o seu estúdio de pole dance, um projeto que ancora o seu quotidiano sem trair a sua liberdade.
Zero planificação, 100% intuição
Há uma palavra que Rose nunca usa: itinerário. Não reserva nada. Não planifica nada. Não organiza nada. Compra um bilhete de avião, reserva uma noite num hostel e constrói o resto no local, ao sabor dos encontros e das conversas.
Não é despreocupação — é uma filosofia. O nomadismo, tal como ela o pratica, é um exercício radical de espontaneidade. Reservar com demasiada frequência ou demasiada antecedência é fechar-se num plano e perder a liberdade de mudar de rumo de um dia para o outro.
«O nomadismo digital traz-me leveza e espontaneidade e liberta-me das responsabilidades materiais. Posso viver a minha vida ao meu ritmo, passar muito tempo na natureza e deixar-me levar pelo vento.»
A solidão: uma aprendizagem, depois uma escolha
É o tema que Rose aborda com mais nuance. A solidão do nomadismo, conhece-a intimamente. No início, era dura: aprender a fazer tudo sozinha, aceitar que as conexões sejam efémeras, lidar com amizades que se fazem e desfazem ao ritmo das deslocações. O tipo de solidão que não é dramática, mas que desgasta, porque é preciso motivar-se todos os dias sem ninguém para nos empurrar.
«No início, tive dificuldade em lidar com a solidão nos momentos em que era mais intensa — quando estamos doentes, stressadas, cansadas. Com o tempo, domestiquei-a bastante. Agora faz parte da gama de emoções. Acolho-a e deixo-a passar.»
Hoje, Rose diz precisar de muito mais momentos sozinha do que antes. A solidão, de prova, tornou-se necessidade. Já não sofre com a sua. Mas vê nas mulheres que acompanha que é frequentemente o travão mais profundo — aquele que nem sempre ousamos nomear.
Ser mulher, aqui ou noutro lugar
Sobre a questão da segurança enquanto mulher nómada, Rose tem uma posição firme: o perigo não é maior na estrada do que em casa. E di-lo sem rodeios.
«Acredito que ser mulher, no Canadá, em França ou na Mongólia, é um peso que pesa todos os dias e que dá lugar a situações desconfortáveis e por vezes perigosas. Não considero que ser viajante aumente esse risco.»
Há ruas em Montreal onde não andaria sozinha de noite. Há em todo o lado. O risco não é geográfico, é sistémico. E sendo assim, mais vale estar vigilante a fazer algo que se ama.
«Para onde quer que vamos, a toda a hora, temos de ser mais vigilantes do que os homens. É assim. E portanto, já que temos de suportar a misoginia, mais vale suportá-la a fazer algo que amo.»
Orientar quem não ousa
Foi naturalmente que Rose começou a acompanhar outras mulheres. As perguntas chegavam em massa: como partir, o que levar, como gerir a fiscalidade e, sobretudo — é perigoso? Vou aborrecer-me? Vou sentir-me demasiado sozinha?
O medo volta sempre. Medo da insegurança, medo de não encontrar um círculo social estimulante, medo do tempo longo. Rose ouve, tranquiliza, partilha a sua experiência. Não vende um sonho. Mostra que outra realidade existe, para quem a quiser agarrar.
O que a estrada lhe deu
Rose não duvida. Dito de forma simples, sem arrogância. Está onde escolheu estar. Se um dia quiser outra coisa, adaptar-se-á. Nada é permanente, e é precisamente isso que a liberta.
A viagem trouxe-lhe o que nenhum quotidiano sedentário teria podido: a independência total, a capacidade de resolver qualquer problema sozinha, uma abertura radical às diferentes formas de viver e de pensar. E sobretudo, a confirmação de que a vida «tradicional» não é a única opção válida.
«Deixei de ouvir as opiniões dos outros sobre as minhas escolhas de vida. Confio na minha intuição e no meu discernimento muito mais.»
Se pudesse falar com a Rose de há cinco anos, aquela que se preparava para deixar tudo, não mudaria nada. Dir-lhe-ia simplesmente: «Continua a confiar em ti e a seguir a tua intuição. Tudo o que fizeres com o coração será a coisa certa a fazer.»
E a uma mulher que ainda hesita? O conselho de Rose cabe em duas frases: «Faz. Se não gostares, mudas. Mais vale enganar-se do que arrepender-se de nunca ter tentado.»
Este artigo faz parte da nossa série publicada por ocasião do Dia Internacional dos Direitos da Mulher 2026. Na Hello Mira, acreditamos que o nomadismo digital se vive melhor quando é partilhado — com os locais, com outros nómadas, com quem ousa. É por isso que damos voz a mulheres que vivem esta aventura diariamente, com as suas dúvidas, as suas batalhas e a sua visão.
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