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Vida Nómada10 min de leitura3 mar. 2026

Sarra Kaak: "Obrigada por confiares na tua intuição"

Retrato de uma coach tunisina que transformou a viagem numa ferramenta de crescimento

Sarra Kaak: "Obrigada por confiares na tua intuição"

Sarra Kaak tem 30 anos, é tunisina, e o seu trabalho é ajudar as pessoas a manterem-se de pé. Coach certificada em mindset e Master Practitioner em PNL, fundou o Disconnect to Connect, um projeto centrado na saúde mental, mindfulness e na nossa relação com o trabalho. Acompanha jovens profissionais e empreendedores que querem avançar sem se esgotarem. Nómada há quatro a cinco anos entre o Norte de África, Ásia e Turquia, prepara-se para retomar a estrada em 2026.

Mas por trás da mulher que guia os outros está alguém que teve de se guiar a si mesma — sem plano, sem rede de segurança, e por vezes sem saber como se apresentar.

Construir uma identidade na estrada

O momento mais difícil de Sarra como nómada não teve nada a ver com um voo perdido ou um alojamento que caiu. Foi uma crise de identidade.

"O meu momento mais duro foi quando estava a mudar de carreira e tudo ainda era confuso. Já estava no coaching, mas não completamente. E ao mesmo tempo, o marketing já não me representava, mesmo que ainda fosse a minha identidade. Conhecer pessoas o tempo todo e não saber como me apresentar — foi precisamente essa exposição que me ajudou a tomar o controlo e construir a minha identidade nos meus próprios termos."

A viagem, com os seus encontros constantes, funcionou como um acelerador. À força de ter de se apresentar vezes sem conta, Sarra acabou por se encontrar.

Burnout, mesmo quando amas o que fazes

É um tema que Sarra conhece por dentro — não só como coach, mas como mulher que escolheu construir algo sozinha, na estrada.

"Fazer o que amas não te impede de pensar demais, de querer prestar o melhor serviço, de te comprometeres em excesso. E é precisamente porque te importas tanto que às vezes pode tornar-se mais difícil — se não sabes quando parar."

Sarra não esperou que o burnout a atingisse antes de reagir. Conhece as suas cinco fases, e foi ao detetar os primeiros sinais de alerta que conseguiu recuar. É exatamente o que ensina: a autoconsciência como primeira ferramenta de prevenção.

A solidão, vista por quem trabalha na conexão

Poder-se-ia pensar que alguém que trabalha na conexão humana nunca sofre de solidão. Sarra vê as coisas de forma diferente.

"Sou ambivertida — recarrego-me tanto com pessoas como sozinha. Houve momentos em que estava sozinha e apreciava, e outros em que precisava de companhia e ia procurá-la. Não tenho problema em abordar pessoas num hostel ou num café se sinto a energia certa. Mas sei que não é algo que todos consigam fazer."

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E quando a necessidade de conexão está lá mas falta o impulso para ir ter com os outros? Sarra tem os seus métodos: check-ins regulares com os seus entes queridos pelo mundo, tours em grupo, ou simplesmente — sentar-se com o sentimento, tentar perceber porquê, e trabalhar essa parte de si mesma.

A dupla singularidade: mulher, tunisina, nómada

No mundo do nomadismo digital, o perfil típico continua a ser o de um homem ocidental. Sarra marca duas caixas fora do molde: é mulher e é árabe.

"Há definitivamente uma dupla singularidade. Mas na minha experiência, sobretudo gerou curiosidade nas pessoas, e adoro isso — trocar sobre as nossas culturas, religiões e tradições. Não é assim tão comum encontrar mulheres tunisinas ou árabes viajantes que façam nomadismo e mochilão."

Algumas vezes, a curiosidade tomou formas menos bem-intencionadas — rótulos colados demasiado rápido, perguntas inadequadas disfarçadas de interesse. Sarra aprendeu a lidar com elas. E esclarece: são uma minoria no seu percurso.

Sobre o nomadismo feminino de forma mais ampla, é lúcida: "As mulheres enfrentam os mesmos desafios que em todo o lado, e o mais importante continua a ser a segurança. Não muda o curso da minha experiência, mas tomo precauções extra." Acrescenta também que as mulheres nómadas carregam frequentemente uma expectativa implícita: a da estabilidade, de se fixarem. O nomadismo pode então ser percebido como rebeldia em vez de uma escolha de vida.

Disconnect to Connect: ir para dentro

O projeto de Sarra não é apenas coaching. É uma visão.

"Num mundo que nos puxa constantemente para fora, ajudamos-te a aprender a ir para dentro e usar os teus melhores recursos para obteres o que desejas. Todos queremos fazer mais — mas a que custo? Ajudamos-te a alcançar os teus sonhos sem te perderes pelo caminho."

No coração do seu método: produtividade, regulação do sistema nervoso, prevenção do burnout — tudo através de uma abordagem holística centrada no mindset e na PNL.

Produtividade cíclica: trabalhar com o corpo, não contra ele

Este é talvez o tema mais original que Sarra defende — e o mais pertinente para um artigo do Dia da Mulher.

"As mulheres atravessam um ciclo de aproximadamente 28 dias, e esse ciclo tem quatro fases. Cada fase tem as suas próprias vantagens, das quais a maioria das mulheres nem sequer tem consciência. Isto significa que a produtividade não é linear. Em vez de te forçares a fazer sempre mais mesmo quando se torna difícil, eu simplesmente ensino-as a fazer as coisas de forma diferente — o que mantém os objetivos ativos com melhor gestão dos nossos recursos internos."

Por outras palavras: parar de funcionar segundo um modelo de produtividade desenhado para ciclos masculinos, e aprender a ativar os pontos fortes de cada fase. Uma mensagem rara no mundo do trabalho, e ainda mais rara no do nomadismo.

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A viagem como escola de coaching

Sarra não separa a sua profissão da sua vida na estrada. A viagem alimenta diretamente a sua prática.

"O mundo ensinou-me mais sobre as pessoas e a essência do ser humano. Ouvir as histórias dos locais e dos viajantes ensinou-me gratidão, e quantas oportunidades existem no mundo. Mas acima de tudo, trata-se de pôr em prática tudo o que sei em teoria. Quando estás exposta ao mundo e enfrentas desafios, escolhes crescer — e isso torna-se depois mais fácil de transmitir aos teus clientes."

É o tipo de encontro que viveu na Turquia e em Chipre, através do couchsurfing: anfitriões curdos que abriram as portas de uma cultura impossível de descobrir de outra forma. O tipo de experiência, diz, que não se pode googlar.

"Obrigada por confiares na tua intuição"

Se Sarra pudesse falar com a versão de si mesma de há cinco anos — aquela que tinha acabado de deixar o emprego sem plano — dar-lhe-ia apenas uma mensagem:

"Obrigada por confiares na tua intuição."

Hoje, Sarra prepara um retiro workation em Djerba, na Tunísia — uma estadia desenhada para trabalhadores remotos e nómadas digitais que se sentem sobrecarregados ou presos em modo produtividade permanente. Uma mistura de tempo de trabalho, workshops, práticas de mindfulness, cozinha local e exploração cultural. O tipo de experiência que encarna perfeitamente o que significa Disconnect to Connect.

Este artigo faz parte da nossa série publicada por ocasião do Dia Internacional dos Direitos da Mulher 2026. Na Hello Mira, acreditamos que o nomadismo digital se vive melhor quando é partilhado — com os locais, com outros nómadas, com quem ousa. É por isso que damos voz a mulheres que vivem esta aventura diariamente, com as suas dúvidas, as suas batalhas e a sua visão.

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