Samantha Tiasoa: «Tudo está na cabeça.»
Retrato de uma jornalista e empreendedora malgaxe que constrói o nomadismo digital a partir de Madagáscar — provando que não é preciso vir de um país rico para ousar.

Retrato de uma jornalista e empreendedora malgaxe que constrói o nomadismo digital a partir de Madagáscar — provando que não é preciso vir de um país rico para ousar.
Samantha tem trinta anos, uma agência digital, um blogue sobre nomadismo, aulas numa universidade privada e uma convicção forjada por dez anos de estrada: os limites que nos impomos raramente são os que pensamos.
Originária de Madagáscar, faz parte desses nómades digitais de quem quase nunca se fala — os que não viajam da Europa ou da América do Norte para o Sul, mas que fazem o caminho inverso, com um passaporte fraco, bilhetes de avião entre os mais caros do mundo e uma sociedade que espera que as mulheres se casem antes dos 25 anos.
Nova Iorque, 2016 — o clique
Tudo começa com uma reportagem. Em 2016, Samantha, jovem jornalista malgaxe, consegue uma bolsa para cobrir as eleições americanas nos Estados Unidos. É a sua primeira viagem fora de Madagáscar. Em Nova Iorque, numa mesa de voto, observa um jornalista russo a filmar. Pergunta-lhe como gere os prazos. Ele responde que não tem patrão, que é freelancer, que publica no seu próprio blogue. A conversa dura uns minutos. O clique ainda perdura.
«Foi aí que eu disse a mim mesma: quero essa vida.»
Regressa a Madagáscar com uma ideia: criar um jornal online. Chamar-se-á Book News Madagascar. O modelo não funciona — na época, o acesso à internet é limitado, o consumo de informação online praticamente inexistente. Redireciona-se para a redação web e o community management. Clientes locais primeiro, depois internacionais. O negócio descola.
«Não vivi isso como um fracasso, mas sim como um pivot natural. Até o tomei como uma oportunidade.»
Nómade ao contrário
O que torna o percurso de Samantha singular nesta série é a direção da viagem. Onde as outras mulheres desta reportagem partem do Ocidente para o Sul, Samantha faz o inverso. E as pessoas não esperam isso.
Em Bali, num supermercado, uma caixa cumprimenta-a em indonésio — toma-a por local. A conversa inicia-se. Quando Samantha explica que vem de Madagáscar e que viaja como nómade digital, a caixa fica estupefacta.
«Ela disse-me que era a primeira vez que ouvia alguém de África viajar para a Indonésia como nómade digital. E mesmo viajar, ponto.»
O nomadismo visto do Sul não tem os mesmos contornos. O passaporte malgaxe é o que se chama um passaporte fraco: cada viagem exige montanhas de papelada — certificado de residência, extrato bancário, comprovativo de alojamento, motivo de estadia. Para certos destinos, as mulheres sozinhas são escrutinadas com ainda mais suspeita. A Europa continua a ser um sonho complicado: o visto Schengen, Samantha ainda não conseguiu obtê-lo. França e Espanha estão no topo da sua lista. Poupa todos os meses num fundo dedicado a bilhetes de avião, porque a espontaneidade, a partir de Madagáscar, é um luxo.
Empreender quando ninguém te convida
O empreendedorismo feminino em Madagáscar não tem nada de óbvio. A pressão é clara: estudos, bom emprego, casamento antes dos 25. Samantha tem trinta anos, é solteira, viaja. Os olhares pesam — não os da sua família, que é aberta e sempre a apoiou, mas os de fora.
A sua mãe, ela própria empreendedora e viajante, deixou-lhe um conselho que nunca a abandonou.
«Quando era pequena, disse-me que não devia ter medo de nada e que eu era forte o suficiente para realizar tudo o que quisesse. É essa voz que ainda ouço quando por vezes duvido e as coisas se tornam difíceis.»
Em Bali, reencontra os mesmos códigos de Madagáscar — casamento jovem, olhar insistente sobre as mulheres solteiras. Na Indonésia, tomam-na por local, então julgam-na como local. No Quénia, perguntam-lhe regularmente se não tem medo de viajar sozinha. Ela avança na mesma. Não por bravata — por construção. Ano após ano, viagem após viagem, um trabalho interior que começou muito antes do primeiro bilhete de avião.
A solidão de quem volta mudada
Sobre a solidão, Samantha distingue duas formas. Há a do afastamento — as suas duas irmãs, as videochamadas que dão vontade de chorar em vez de tranquilizar, os eventos familiares que perde a cada partida. Em Bali, encurtou a sua estadia porque a saudade se tornara demasiado forte.
E há a outra solidão, mais surda: a do regresso. O desfasamento com as pessoas à sua volta, que não viram o que ela viu, que nem sempre compreendem porque volta diferente.
«Assim que viajo e vejo outra coisa, quando volto, vejo as coisas de forma diferente, vejo as pessoas de forma diferente. Acontece sempre. Mas depois de uma viagem, é ainda pior.»
Da adolescente assediada à mulher que forma os outros
Samantha não esconde de onde vem interiormente. No liceu, era fechada, vítima de bullying, cheia de complexos — sobre o seu físico, o seu lugar, a sua capacidade de ser amada. A viagem fez saltar essas trancas uma a uma.
«Permitiu-me ver que toda a gente é diferente e que se pode viver perfeitamente nessa diversidade. Basta abraçar essa faceta de si mesmo e aceitar-se. E sobretudo, sobretudo, sobretudo parar de pensar no que os outros pensam e simplesmente viver a sua vida.»
Hoje, transmite.
Em 2022, através do Digital Lab, forma jovens malgaxes em freelancing digital. Entre as pessoas que acompanhou, uma antiga estagiária tornada community manager de pleno direito, com clientes internacionais, autónoma e capaz. Samantha fala disso com um orgulho sem filtro.
Samantha continua a transmitir, é a sua natureza. Hoje dá aulas numa universidade privada, aulas que ditam os seus deslocamentos quando não pode fazê-las à distância.
E agora?
Daqui a cinco anos, Samantha não se vê em Madagáscar. Quer instalar-se noutro lugar — ainda não sabe onde. É também por isso que precisa de viajar mais: para encontrar. Istambul está planeada para abril — ela é atraída pela energia de uma cidade que une dois continentes. A Europa continua a ser o grande projeto.
E se uma jovem malgaxe a olhar de longe pensando «ela tem sorte, eu nunca conseguiria»? Samantha tem uma resposta. Uma única frase, limpa, definitiva:
«Tudo está na cabeça.»
Este artigo faz parte da nossa série publicada por ocasião do Dia Internacional dos Direitos da Mulher 2026. Na Hello Mira, acreditamos que o nomadismo digital se vive melhor quando se partilha — com os locais, com outros nómades, com quem ousa. É por isso que damos a palavra a mulheres que vivem esta aventura no dia a dia, com as suas dúvidas, as suas lutas e a sua visão.
FAQ
Perguntas frequentes
É possível tornar-se nómada digital com um passaporte fraco?
Sim, mas exige muito mais planeamento do que os nómadas ocidentais costumam descrever. Samantha Tiasoa, jornalista e nómada digital malgaxe, tem de reunir documentação completa para cada viagem: comprovativo de morada, extratos bancários, reserva de alojamento, motivo detalhado. Poupa todos os meses num fundo dedicado aos voos, porque a espontaneidade é um luxo que quem tem um passaporte fraco não se pode dar.
O que significa «nómada ao contrário» e por que é importante?
A maioria das histórias de nomadismo digital segue a mesma direção: pessoas de países ricos a viajar para o sul. Samantha Tiasoa faz o caminho inverso —de Madagáscar em direção à Ásia e além— e raramente é reconhecida como nómada por isso. Em Bali, uma caixeira disse-lhe que era a primeira vez que ouvia falar de alguém de África a viajar para a Indonésia como nómada digital. O défice de representação é real.
Como é que Samantha Tiasoa começou a sua carreira digital e o que desencadeou a mudança para o nomadismo?
Em 2016, Samantha cobriu as eleições americanas no âmbito de uma fellowship jornalística —a sua primeira viagem fora de Madagáscar. Em Nova Iorque conheceu um jornalista freelance russo sem patrão, que publicava no seu próprio blogue. Essa conversa acendeu uma ideia. De regresso a Antananarivo, tentou lançar um jornal online, mudou para redação web e gestão de comunidades quando o modelo falhou, e foi construindo uma carteira internacional.
Qual é o custo emocional de regressar a casa depois de viver como nómada digital?
Samantha Tiasoa descreve duas formas de solidão na vida nómada: a solidão da distância —eventos familiares em falta, videochamadas que dão vontade de chorar— e a solidão do regresso. Voltar transformada e constatar que as pessoas ao seu redor não viveram o que ela viveu cria um distanciamento que não se fecha facilmente. Esse sentimento, diz, fica mais pesado após cada viagem.
Como é que viajar ajuda as mulheres a superar as suas inseguranças?
Samantha Tiasoa era introvertida e vítima de bullying no liceu, cheia de dúvidas sobre a sua aparência e o seu lugar no mundo. Uma década de viagens derrubou essas barreiras de forma sistemática. A sua conclusão: a diversidade torna-se evidente quando a vivemos por dentro, e a opinião dos outros perde força quando aprendemos a viver fora dos códigos sociais que lhe davam poder. Forma hoje jovens malgaxes em freelancing digital através do Digital Lab.
Este artigo faz parte da série Hello Mira para o Dia Internacional dos Direitos da Mulher 2026. Descubra a nossa investigação completa: o nosso relatório sobre o nomadismo feminino.
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